Wednesday, October 04, 2006

O amor é uma luta entre a nossa ânsia de nos unirmos a outra pessoa e o receio que temos de, nesse processo, perdermos a nossa identidade e a nossa liberdade.
Quem não entende a natureza deste conflito pode interpretar as normais hesitações como prova de que não estamos realmente apaixonados. Por estranho que pareça, a hesitação pode muitas vezes significar o contrário - que estamos a passar de uma fase de paixão louca e idealização para outra em que podemos começar a amar a pessoa real.
Essa transição é difícil para pessoas narcisistas - quem transfere o amor-próprio para um Outro ideal acaba por irritar-se com quaisquer falhas ou pontos fracos da imagem da pessoa que criaram. As exigências rigorosas que fazemos à pessoa que queremos amar encontram-se entre os maiores obstáculos a uma relação duradoura. Quem é forte ou orgulhoso também pode sentir que está a dar parte de fraco ao admitir que precisa de outra pessoa.
É claro que as demonstrações de indiferença, hesitação, relutância ou pura hostilidade também fazem parte do velho jogo do amor. Antigamente esperava-se das mulheres que fingissem repudiar os avanços dos homens - e quanto mais o faziam, mais isso abonava a seu favor.
No entanto, os sentimentos de ambivalência são mais do que simples fingimento. A maioria das pessoas sente desejo alternado com resistência, e até amor alternado com ódio. Thomas Moore, o poeta irlandês, escreveu em dada altura:
«Quando te amei, não podia senão crer nos inúmeros momentos de alegria. Mas hoje a repulsa que me fazes ter dá-me mais luxúria do que tive um dia.»
O ódio pode de facto ser uma defesa psicológica arreigada contra o compromisso extremo que é amar alguém.
Mas no meio de tanta ambivalência de acções e sentimentos, como é possivel perceber se o outro ainda no ama? É que quando duas pessoas se amam, os olhos nunca mentem...